Outubro Rosa: Perda do cabelo no tratamento para câncer de mama

Por Thais Bello

Perda do cabelo no câncer de mama
Foto Shutterstock

Nos outros textos da nossa série Outubro Rosa especial para mulheres que já tiveram o diagnóstico de câncer de mama, falamos sobre os efeitos do tratamento na pele, nas unhas e hoje vamos falar sobre um tema muito sensível – perda do cabelo no câncer de mama.

Perdê-los durante o tratamento de quimioterapia é algo que quase sempre acontece, mas a maneira de lidar com esse efeito pode fazer toda a diferença. Contudo, é importante dizer que existem recursos que minimizam a queda e aceleram a recuperação dos fios pós-tratamento.

Convidei Giselle Barros*, minha colega dermatologista que estuda a fundo esse tema, para responder as principais dúvidas.

Perda do cabelo no tratamento para câncer de mama

Thais Bello: Quais os efeitos esperados do tratamento do câncer de mama no cabelo?

Giselle Barros: O tratamento pode trazer algumas mudanças nos cabelos. Contudo, isso dependerá do tipo de medicamento utilizado.

A queda de cabelos é um evento adverso muito comum causado pela quimioterapia clássica para o câncer de mama. Afeta bastante a autoestima e a qualidade de vida das mulheres.

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Costuma ocorrer nas primeiras semanas após o início do tratamento. Os cabelos voltam a crescer, em geral, a partir do primeiro mês até 6 meses após o término da quimioterapia. Cerca de 2/3 das mulheres observam que os fios crescem após a quimioterapia com mudança na textura, cor ou ondulação. Algumas se queixam de o volume e a densidade não voltarem a ser como antes.

TB: O cabelo sempre cai?

GB: Para as mulheres que fazem a quimioterapia clássica com antraciclinas (“quimio vermelha”) e taxanos (“quimio branca”), quase todas perdem os cabelos ao ponto de necessitarem de peruca ou lenço para disfarce. Quando fazem uso de terapias de bloqueio hormonal (como tamoxifeno ou inibidor da aromatase – p.ex. anastrozol, letrozol), a queda é menos intensa. O uso isolado de inibidores de HER-2 (p.ex. trastuzumabe) ou de agentes antiangiogênicos (p.ex. bevacizumabe) não costuma trazer impacto nos cabelos.

TB: Você estuda muito o uso da touca fria para diminuição da queda. Pode contar mais um pouquinho pra nós sobre isso?

GB: O resfriamento do couro cabeludo durante a sessão de quimioterapia é, no momento, o tratamento mais eficaz para a prevenção da queda de cabelos da quimioterapia.

Estudado desde a década de 70, o procedimento tem sido aprimorado ao longo dos anos. No Brasil, dois equipamentos estão disponíveis. O primeiro é a touca de criogel, armazenada em freezer (-25 a -30°C) e trocada a cada 30 minutos durante a sessão de quimioterapia. O segundo é a máquina de resfriamento automatizada, em que circula pela touca um líquido a cerca de -4°C e não precisa de trocas.

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Com o resfriamento a baixas temperaturas, os vasos do couro cabeludo sofrem redução do fluxo, com menor circulação do quimioterápico, diminuição do metabolismo das células do couro cabeludo, o que reduz a ação do quimioterápico nessas células. Com isso, parte dos cabelos é poupada e a paciente apresenta menor queda de cabelos.

Contudo, infelizmente, o resultado do resfriamento não é igual para todos. Depende do tipo de quimioterapia, da idade, da temperatura atingida pelo couro cabeludo, entre outros fatores. Sabe-se que pacientes em tratamento com taxanos (“quimio branca”) apresentam melhor taxa de preservação dos cabelos (entre 70-80% de chance de sucesso) do que as que fazem esquemas com antraciclinas (“quimio vermelha”; cerca de 20-50% de chance de sucesso). Pessoas que estão em tratamento para tumores hematológicos (como leucemia ou linfoma), e pacientes com doenças causadas ou agravadas pelo frio não devem fazer o resfriamento do couro cabeludo durante a quimioterapia.

TB: Quais os riscos do uso desse recurso?

GB: É um procedimento seguro. Antigamente havia o receio de preservar células cancerígenas e o paciente vir a ter recorrência do câncer no futuro. Atualmente, vários estudos mostram que o resfriamento não aumenta a chance de metástase no couro no futuro em mulheres com câncer de mama localizado. Existe, também, um risco de queimadura pelo frio com o uso das toucas de criogel. Portanto, áreas com pouco cabelos ou sem cabelos (testa e orelhas) devem ser protegidas durante o tratamento.

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TB: Que outras recomendações você pode dar para lidar com os efeitos da quimioterapia nos cabelos?

GB: Como o resfriamento é pouco disponível e o custo pode ser alto para muitas pacientes, o enfrentamento da alopecia é a opção. Não é um momento fácil, mas pode se tornar mais leve ao se resgatar a autoestima com o uso de disfarces como perucas (existem instituições que doam perucas, como a ONG Cabelegria, por exemplo), e o uso de lenços (Flávia Flores, que tratou câncer de mama, é líder do Instituto Quimioterapia e Beleza e tem vários vídeos com dicas de amarração de lenços). Manter cuidados com a pele e usar maquiagem ajudam muito na autoestima. É possível se sentir bonita durante o tratamento! Muitas mulheres descobrem com a doença o quanto pode e é bom se cuidar!

O dermatologista é um aliado durante todo o processo de tratamento do câncer. Ele é o profissional que poderá indicar medicamentos para acelerar o crescimento dos fios. Além disso, também pode prescrever suplementos e tratamentos estéticos para ajudar na recuperação dos cabelos.

Giselle Barros é médica dermatologista do Grupo de Oncologia Cutânea do Hospital Oswaldo Cruz e do Centro Paulista de Oncologia.

No próximo texto da série Outubro Rosa falaremos sobre aspectos da cirurgia para o tratamento do câncer de mama. Não perca! Para continuar o papo, me escreva no Instagram @drathaisbello.

Beijo grande!