Quando o consumo de álcool se torna perigoso?

Por Alice Ellis e Larissa Serpa

consumo de alcool
Foto: Shutterstock

Bebidas alcoólicas fluem tão naturalmente nos cenários sociais e até mesmo profissionais que você provavelmente considera toda a bebedeira apenas um fato da vida. Como a maioria das pessoas com idade na casa dos 20, Luiza Kabata* tem costume de ir a bares com amigos e sempre diz sim aos coquetéis em eventos de trabalho. Mas a publicitária de 25 anos não tem um problema com consumo de álcool – ela raramente fica bêbada, quase nunca acorda com ressaca e sempre pede um Uber para voltar para casa.

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Quando indagada sobre quantos copos ela toma em uma semana típica, o primeiro chute é oito. E então ela começa a contar: segunda à noite teve jantar com o namorado – e uma garrafa de vinho. Terça, a despedida de um colega resultou em uma rodada de mojitos. Quarta, jantar – e todas as cervejas que acompanham – com a amiga. Após o começo de semana agitado, quinta é dia de ficar em casa, assistir aos episódios atrasados de Grey’s Anatomy e relaxar com uma taça de tinto. Sexta-feira foi o happy hour da empresa – que, oba, acabou de fechar uma conta com um cliente incrível. Sábado é dia de balada com as amigas (com alguns shots de vodca) e domingo é mais tranquilo, acompanhado apenas de um brunch regado a Bloody Mary.

É fácil perder a conta em uma cultura em que celebrar e socializar são praticamente sinônimos de copos brindando. A história de amor da humanidade com o álcool não é de hoje. Há indícios de que até mesmo nossos antepassados da pré-história comiam frutas estragadas para sentir os efeitos do álcool resultado da fermentação natural desses alimentos. E nossa nação é mundialmente conhecida pelas festas que envolvem álcool – oi, carnaval!

Os brasileiros consomem 40% mais de álcool do que a média mundial, segundo o último Relatório Global sobre Álcool e Saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS), o que equivale a cerca de 8,7 litros anuais por indivíduo acima dos 15 anos. E a projeção é que a bebedeira aumente mais, ultrapassando os 10 litros até 2024.

Sim, seus “apenas dois drinques no final do expediente” entram nessa conta e, com o passar dos anos, podem resultar em inúmeros problemas se forem muito recorrentes. Uma quantidade grande de pesquisas sobre o assunto mostra que exceder com frequência o limite recomendado de álcool – cerca de 20g diárias, o equivalente a dois chopes de 300 ml – leva de problemas amenos (pele sem brilho, falta de energia) a riscos sérios de saúde (como alguns tipos de câncer e maior chance de acidente vascular cerebral).

Acima do limite

Vendo de longe, o que parece é que nossa fase de álcool passa assim que deixamos os anos mais jovens, de faculdade e festas. “De fato, existe uma pressão social para o consumo do álcool durante a adolescência, pois isso ainda é uma descoberta e acaba virando uma forma de se afirmar no grupo de amigos”, explica o psicólogo Yuri Busin, diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental Equilíbrio, em São Paulo. Mas a verdade é que a vida adulta e todos seus compromissos nos fazem beber em quantidade menor por vez, mas com muito mais frequência. Além disso, tomar um vinho ou prosecco nos encontros sociais tem um quê de sofisticação – é uma nova medida de realização pessoal. “Em muitas situações adultas, o consumo de álcool ainda é visto como algo bacana, uma reafirmação de que você é uma pessoa legal”, diz Yuri. Tanto que, em alguns casos, negar uma taça em encontros profissionais pode até ser mal visto. O mesmo acontece se você pede um suco durante o happy hour da empresa, especialmente se está entre homens.

Bruna Soldera, 29 anos, é dona da própria empresa de marketing e concorda totalmente. Após terem fechado um novo contrato, dois dos seus clientes abriram uma garrafa de tequila para comemorar. Em apenas alguns minutos, ela virou 3 shots (o primeiro para fechar o negócio e o segundo e terceiro para comemorar com cada um deles). “Eu senti que eles esperavam que eu os acompanhasse no mesmo nível”, ela conta. “É tipo um ritual para ganhar respeito. Eles esperam que você aguente tanto quanto eles.” Homens ainda diminuem mulheres que se embebedam com facilidade, segundo ela. Ainda assim, uma noite normal para ela inclui dois ou três eventos de networking, o que significa que ela bebe muito mais taças por dia do que a maioria dos seus clientes.

É claro que não podemos colocar toda a culpa na pressão externa. “O álcool tem a função social de liberar amarras, nos soltar”, explica Yuri. Afinal, beber é divertido e, além disso, a maioria das mulheres que bebe mais de sete drinques por semana não é considerada alcoólatra. Mas isso também não significa que estão longe de riscos.

Pior que a ressaca

Enquanto o álcool desce pelo seu sistema digestivo, ele vai sendo diluído antes de entrar na corrente sanguínea. Em geral, mulheres têm menos água no corpo do que homens (e menos de uma enzima responsável por quebrar as moléculas de álcool, a aldeído desidrogenase ou Aldh), o que quer dizer que nossos órgãos são expostos a níveis mais altos da substância tóxica. “O consumo excessivo está diretamente ligado a doenças como pancreatite aguda e crônica, às doenças hepáticas e às doenças do estômago, como úlceras. Além de aumentar o risco de desencadear males de ordem psiquiátrica, como o transtorno bipolar”, diz o gastroenterologista Marcos Belotto de Oliveira, cirurgião dos Hospitais Oswaldo Cruz e Albert Einstein, de São Paulo.

Beber moderadamente ou ficar dentro da recomendação da OMS dificilmente vai causar grandes danos aos órgãos ou à sua saúde. Nem mesmo a noitada regada a álcool que acontece uma vez por mês. Mas mulheres que bebem bastante e regularmente devem tomar cuidado: o álcool pode ainda interromper a comunicação entre os neurotransmissores do cérebro, que controlam tudo, do nosso pensamento à nossa movimentação. E, a longo termo, isso pode levar à depressão, ansiedade e problemas de memória, prejudicar células cerebrais e fragilizar os músculos do coração, fazendo com que eles percam a habilidade de impulsionar o fluxo sanguíneo com eficácia. Além disso, segundo pesquisa da publicação Stroke, dos Estados Unidos, quem bebe demais tem 34% mais chances de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

E, é claro, o fígado também sofre. O órgão tem a função de quebrar as moléculas de álcool, um processo que produz toxinas que promovem inflamação e enfraquecem as defesas naturais do corpo. O álcool também interfere na formação de proteína, reduzindo massa muscular. Em um prazo ainda mais curto, ele dilata as veias, levando uma corrente forte de sangue até a pele, especialmente em volta do rosto. O que, em combinação com a repressão que causa nos níveis de vitamina A, resulta em uma pele inchada e sem viço.

Parando o consumo de álcool aos poucos

Nem sempre há uma linha clara entre a simples diversão e, por exemplo, câncer e doenças cardíacas. E todas sabemos que pesquisas mostram que beber moderadamente tem seu lado bom. “O ideal é consumir vinho, pois ele contém flavonoides, que ajudam a aumentar os níveis de colesterol bom. Uma taça possui 10 gramas”, conta Marcos. O problema é que muitas mulheres apenas absorvem a parte “beber é saudável” de toda essa lista de efeitos e, então, exageram na dose.

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Então o que devemos fazer? Primeiramente, é importante encarar o quanto você realmente está bebendo, mantendo um diário no qual você escreve todos os drinques que toma, ou um aplicativo (tente o Drink Tracker, que é gratuito). E seja honesta consigo mesma. Se suas anotações revelarem que você passa dos limites regularmente, é hora de prestar atenção – e não dar desculpas como “ah, mas é que esse mês foi de celebração”. Pergunte-se se você está no modo automático quando vai para um bar, já pedindo uma cerveja ou um drinque sem nem ao menos refletir se está mesmo com vontade daquela bebida.

Quadrada, eu?

Não quer ser essa pessoa? Não se preocupe, a chave é diminuir e não cortar o álcool de vez. Eis algumas ideias para beber de maneira mais saudável:

1Álcool falso

Se você está com medo de ser mal vista em uma festa de empresa, peça para o garçom preparar um drinque com água tônica e limão ao invés de vodca e soda, por exemplo. As pessoas têm menos tendência a pressionar se não perceberem a diferença.

2Coma antes

Tente esperar até que o prato ou a porção chegue antes de já pedir a bebida alcoólica. Assim, você evita se embebedar de estômago vazio.

3Alterne com água

Além de manter o corpo hidratado, alternar um gole de álcool com um de água vai ajudar você a beber menos e mais devagar.

4Troque seu veneno

Existem várias opções de vinhos e cervejas com menos teor alcoólico. Bônus: eles normalmente possuem menos calorias.

5Mude as atividades

Substitua alguns eventos que têm álcool como base por outros mais saudáveis, quando possível – a noite de sábado com as amigas na balada pode virar um domingo no SPA.