Saiba como as notícias falsas podem colocar em risco sua saúde

Entenda o que há por trás da onda de espalhar notícias falsas pela rede

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por Letícia Naísa e Tracy Middleton

Será que malhar a cintura pode mesmo reduzir pneuzinhos? Tomar antibióticos para um resfriado é ok, né? Meu Deus, eu realmente preciso passar fio dental? Nós não somos médicas, mas como jornalistas de saúde, nosso radar para fatos duvidosos de bem-estar é bastante refinado (só para deixar registrado, as respostas são: não, não e gostaríamos que não, mas sim).

Imaginamos que, quando uma notícia é compartilhada por alguém que conhecemos e confiamos, ela seja legítima. Ou, se são dados de algum veículo respeitado, que tenham sido rigorosamente checados. Mas não é sempre o caso. Notícias de saúde desonestas e falsas, especialmente as publicadas online, cresceram e são compartilhadas com mais frequência que as baseadas em evidências, segundo uma análise do jornal norte-americano The Independent. Pesquisadores descobriram que dos 20 artigos mais compartilhados no Facebook em 2016 com a palavra “câncer” no título, mais da metade tinha o conteúdo questionável. E três das histórias mais divididas e curtidas sobre HPV (vírus do papiloma humano) foram desmentidas.

O fenômeno de propagação de notícias falsas que ficou conhecido mundialmente como fake news não é uma novidade, afirma Pollyana Ferrari, professora do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo. As redes sociais transformaram isso em um modelo de negócio: donos de sites que produzem conteúdo falso lucram com anúncios. “Há vários motivos para as pessoas publicarem esse tipo de notícia, mas o principal é que elas estão trocando a razão pela emoção e compartilham sem pensar, porque as notícias se encaixam naquilo que elas acreditam ou desejam”, diz Pollyana.

Outro motivo é o compartilhamento sem antes fazer a leitura do conteúdo, baseando-se na confiança. Hoje aquilo que você lê na sua timeline nas redes sociais é programado por algoritmos baseados nas suas interações, e essa fragmentação da informação também colabora para que as pessoas acreditem em notícias falsas. “Quanto mais restrito é o círculo de compartilhamento de informação de uma pessoa, menos elementos críticos ela tem para questionar os dados”, diz a professora e pesquisadora do curso de jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) Daniela Osvald Ramos. 

Isso é um problema ainda maior quando o conteúdo é sobre saúde. E 90% das pessoas afirmam que confiariam em informações sobre o tema que elas leem nas redes sociais, mesmo que 60% dos links sejam compartilhados por pessoas que não leram o conteúdo da notícia, segundo a pesquisa do The Independent. Ainda fica pior: uma pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo apontou que 72% dos brasileiros de grandes centros urbanos se informam apenas pelas redes sociais.

“Notícias falsas sobre problemas que a medicina ainda não conseguiu resolver, como câncer, dor na região lombar e infertilidade, são as mais difundidas”, diz David Colquhoun, professor de farmacologia na University College London (Inglaterra), cujo blog desmente notícias duvidosas sobre saúde. Sua teoria sobre por que as pessoas são tão suscetíveis a acreditar em falsas manchetes é a seguinte: “Algumas pessoas, até mesmo médicos, preferem ter alguma esperança em vez de nenhuma esperança”.

O fácil acesso a informações nas redes sociais leva muita gente a seguir conselhos médicos que podem ter consequências ruins. “Estou cansado de desmentir no consultório dados falsos que os pacientes receberam”, conta o cardiologista Marcus Gaz, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. É preciso ter um filtro e sempre checar as fontes de uma notícia em sites confiáveis de instituições de ensino e de pesquisa.

Os resultados de seguir conselhos de saúde da internet podem variar entre “não tão nocivo” (comer um alimento que supostamente acelera a perda de peso) até “risco de morte” (tomar um suplemento ao invés de passar por quimioterapia para erradicar o câncer).

Mas a repressão às notícias falsas está ganhando força. O criador do Facebook, o norte-americano Mark Zuckerberg, prometeu combater fake news de todo tipo e, em janeiro deste ano, o Google baniu quase 200 sites por propagar informações enganosas e também criou um novo método por pesquisas de saúde.

Desde março de 2016, o site criou uma maneira de minimizar as enganações da internet no quesito saúde. Ao digitar qualquer condição médica na plataforma, um painel é destacado na parte direita da página, mostrando informações importantes sobre a doença, como transmissão, sintomas e orientações médicas. Os dados são aprovados por médicos do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, e, portanto, muito mais confiáveis.

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