Há pessoas com facilidade natural para correr, levantar peso ou esculpir músculos?

Será que elas nasceram para ser saradas? O embate entre DNA e esforço chegou à atividade física e está revelando coisas fascinantes sobre nós

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Por Bárbara Mangieri e Leslie Rotchford

Você pode ser parte da #FamíliaFitness no Instagram, mas não pode escolher o tipo de corpo que herdou da sua família biológica.

Apesar de os biótipos não terem uma hashtag própria, a predisposição genética tem dominado o debate sobre esportes e atletas desde 2016. Talvez porque 24 pares de irmãos tenham competido nas últimas Olimpíadas. Ou porque as ultramaratonas continuam a atrair audiências impressionantes. Ou mesmo porque alguns testes de DNA anatômicos já estão invadindo o mercado norte-americano, prometendo desvendar todos os segredos sobre nossos corpos para que possamos aperfeiçoar os treinos de acordo com as características de cada um.

Seja qual for o motivo que levou nossa genética à pauta, a dúvida permanece: Podemos manipulá-la para trabalhar a nosso favor?

Era uma vez duas irmãs gêmeas…

Vamos chamá-las de Aline e Amanda. Elas têm o mesmo DNA e cresceram na mesma casa. Então elas deveriam, teoricamente, ter o mesmo biótipo e desempenho atlético, certo? Ainda assim, Aline é magra, sarada e consegue fazer uma maratona completa em menos de 3h, enquanto Amanda está 7 kg acima do peso e não corre nem 10 km. Impressionante?

Os pesquisadores também acham. Isso é parte do motivo pelo qual eles têm estudado gêmeos há décadas. O DNA que esses tipos de irmãos compartilham fazem deles “cobaias” ideais para experimentos. Estudos de longo prazo com gêmeos têm oferecido uma série de informações sobre como os genes afetam nossa saúde, mostrando inclusive como o papel deles na nossa anatomia é forte. A geneticista Lia Kubelka, de Florianópolis (SC), doutora em biologia celular e criadora de um laboratório especializado em mapeamento genético, diz que aproximadamente 66% do nosso preparo físico é determinado por variantes hereditárias. Ou seja, alguns de nós já nascem, sim, com algumas habilidades esportivas, mesmo sem precisar de tanto treino ou esforço.

Mas, apesar de certas características atléticas serem fortemente herdadas, existem mais de 200 genes que estão relacionados a nossa anatomia e metabolismo e, por causa de resultados conflituosos entre estudos, pesquisadores não conseguiram ainda descobrir exatamente o quanto eles influenciam fatores específicos.

Não é o caso da altura, que é algo bem definido: 80% dela é herdada. E essa porcentagem funciona da seguinte maneira: 80% do motivo pelo qual você é baixinha, por exemplo, é genético. Os outros 20% podem ser explicados por outros fatores, como sua alimentação precária durante a infância, period-chave para o desenvolvimento ósseo. Afirmar qualquer outra coisa com uma porcentagem tão exata já é mais arriscado. A probabilidade de você ter herdado força muscular fica entre 30 a 83%. Biótipo, de 47 a 90%.

O que nós de fato sabemos: seus genes são responsáveis pelo seu biótipo, que é parcialmente responsável pelo seu desempenho nos esportes – quadris estreitos e pernas longas e musculosas fazem melhores corredoras, e uma combinação de tronco longo com pernas mais curtas ajuda nadadoras. E, adivinha só: quanto mais fácil é para você fazer algo, maiores as chances de você gostar, manter a prática e ser bem-sucedida naquilo.

Além de moldar nosso corpo, existem ainda alguns genes que contribuem para a velocidade e resistência. Os mais famosos e estudados são os ACTN3 e ACE1. O primeiro está relacionado à força muscular e o segundo, à resistência. Todas nós temos esses genes, mas – novamente – são as variáveis que nos diferenciam. Se você está treinando para uma meia maratona, teoricamente será mais apta a ganhar a competição se tiver a combinação correta de genes de velocidade e resistência. Por outro lado, você pode perceber habilidade atlética nos dois lados da família e, ainda assim, nascer com uma combinação de genes que a condena a ser menos apta para esportes.

Filhas do destino

Até mesmo nossas atitudes em relação a esportes são moldadas no útero. Um estudo holandês com mais de 5 mil irmãos e gêmeos idênticos descobriu isso. Primeiro, os pesquisadores mostraram que as pessoas que tendem a focar nos benefícios dos exercícios (conhecer gente nova, sensação de dever cumprido) se exercitam mais do que aquelas que focam nos negativos (falta de interesse na atividade, falta de tempo, cansaço). Ok, isso é óbvio. Mas eles também descobriram que, enquanto alguns irmãos tinham abordagens diferentes, gêmeos – que possuem o mesmo DNA – tinham atitudes mais espelhadas, confirmando que nossos genes têm, sim, bastante influência.

Pelo lado bom, atitude, ainda que dificilmente, pode ser mutável com algum esforço, mas e a resposta que nosso corpo tem aos exercícios? Isso também parece ser um pouco predeterminado: existe um componente genético chamado “metabolismo adquirido”, que é um jeito chique de dizer “o quanto você tem de predisposição a ganhar massa muscular e ficar sarada”. Pense na sua genética corporal como um cachorrinho. Você pode ter um labrador, superinteligente e desesperado para agradar, ou um beagle, naturalmente teimoso. O quão bem seus cachorros a obedecem depois de meses de treinamento é chamado de “metabolismo adquirido”. Se os dois animais receberem exatamente o mesmo treino, o labrador irá superar o beagle. Claude Bouchard, diretor do Human Genomics Laboratory at Pennington Biomedical Research Center, em Louisiana (EUA), confirmou esse fenômeno estudando pais e seus filhos adultos. Depois de 20 semanas fazendo o mesmo treino de bike, alguns membros da família ficaram mais sarados (os labradores), enquanto outros mal tiveram progresso (os beagles).

A pergunta é: uma pessoa que nasceu com dificuldade em certo tipo de exercício pode de alguma forma alcançar o mesmo desempenho que a pessoa com facilidade natural? “Não se elas forem submetidas ao mesmo treino”, responde Lia. E aí vem a boa notícia (finalmente): você pode descobrir a quais tipos de exercícios seu corpo responde melhor e mudar seu treino para avançar seu desempenho. Você poderia fazer um teste de DNA específico para descobrir seus pontos fortes mas, para Rodrigo Gonçalves Dias, profissional de Educação Física e pesquisador da área de genômica funcional do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, existe uma alternativa melhor: tentativa e erro. “Todos temos um limite fisiológico controlado pela bagagem genética que carregamos”, diz. Se você não vê ou não sente diferença no seu treino, tente mudá-lo, por exemplo, usando as dicas do boxe “Desafie seu DNA”.

Guia parental

Nossos genes representam só metade da batalha. O ambiente, particularmente as experiências vividas na infância, também tem uma influência pesada na nossa performance física. Sua mãe praticava esportes nos fins de semana ou aproveitava o tempo de descanso para ver TV? Seu pai a incentivou a entrar para o time de futebol ou a levava ao shopping todo sábado e só usava a escada rolante?

Os hábitos dos nossos pais e suas opiniões sobre esportes podem ter tanto impacto na nossa atividade física quanto qualquer outra característica geneticamente herdada. “O relacionamento entre pais e filhos influencia o comportamento da pessoa e a maneira como ela lida com diversas situações, inclusive dentro do esporte”, afirma Rodrigo Acioli, presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte e membro do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro.

Veja o exemplo da engenheira química Renata Ramos, 25 anos, de Jundiaí (SP). Ela cresceu vendo seu pai praticar corrida – quando mais novo, ele chegava a correr até 20 km (quase uma meia maratona) por dia. “Ele sempre falou que a gente tem que se mexer, que nascemos para nos movimentar”, diz. Com o incentivo dele, ela começou a praticar ginástica olímpica aos 10 anos de idade e, desde então, já fez vôlei, pilates, academia e corridas de rua. Hoje ela se aventura em aulas de tecido acrobático. “Quando você faz algo que gosta, não espera por algum resultado. Ele surge naturalmente.”

Já Fernanda Lucena, também de Jundiaí, advogada de 36 anos, teve uma experiência oposta. “Meus pais nunca foram ativos, sempre viram exercícios como luxo, lazer ou besteira”, diz. Ela foi uma criança obesa e até hoje, apesar de fazer exercícios e caminhada, permanece com dificuldades para perder peso. “Não me exercito como gostaria, tenho dificuldade para criar o hábito. Para mim é uma tortura”, diz.

A influência da mãe é especialmente potente, diz a revista científica Maternal and Child Health, dos EUA. De acordo com um estudo publicado, filhas de mães que se exercitam são mais propensas a seguirem os passos, e a chance de uma mulher ser fisicamente ativa aumenta se sua mãe a apoiava (levando aos treinos, pagando pelas aulas) e tinha uma boa perspectiva da atividade física. “Como mulheres, mães e filhas compartilham de um vinculo único, aquela é o primeiro exemplo dessa”, diz a autora do estudo, Alyce Barnes, pesquisadora da Newcastle University (Austrália). Similarmente, meninos são mais influenciados pelos pais. Então não é uma surpresa que nós tendemos a copiar os comportamentos do nosso progenitor do mesmo sexo.

Quebrando as regras do DNA

A boa notícia para aquelas que acreditam no poder do esforço é que novas pesquisas mostram que uma vantagem oferecida pelo DNA é um fator menor quando você cresce e se separa da família. Pesquisadores estudaram gêmeos adultos que possuíam o mesmo biótipo durante a adolescência, mas foram morar longe um do outro, e perceberam que a gordura corporal de cada um estava mais relacionada à quantidade de atividade física que executavam – obviamente, o gêmeo mais ativo estava mais em forma. João Bosco Pesquero, biólogo molecular especialista em genômica e coordenador do projeto Atletas do Futuro, de São Paulo, explica: “Isso ocorre devido aos fatores epigenéticos, que estão ligados à influência do meio ambiente sobre os genes”, diz. A alimentação é um exemplo de fator epigenético. Muitos alimentos interagem com o DNA “ativando” ou “silenciando” determinados genes e, portanto, alterando o desempenho físico.

Vamos voltar ao exemplo das gêmeas Alice e Amanda: Amanda pode até ter o potencial genético para correr uma maratona em tempo recorde, mas seu ambiente (trabalho exigente, dois filhos e um marido sedentário) não permite que ela tenha tempo, apoio ou motivação para treinar. Nesse caso, e em muitos outros, as influências externas falam mais alto que a genética. Mas Amanda pode mudar isso!

Veja um exemplo da vida real: os pais da advogada paulista Sheilla Pains, de 26 anos, nunca a incentivaram a praticar exercícios. “Eu não fazia nem mesmo as aulas de educação física na escola”, conta. Depois de engordar 15 kg durante a faculdade, ela começou a academia e caminhadas para perder o excesso de peso. “Iniciei por estética, mas me apaixonei pela corrida e hoje corro por puro prazer”, diz. “Quero completar a São Silvestre este ano e, ano que vem, começarei a competir em meias maratonas.”

O esforço é essencial, porque os genes do metabolismo ou do biótipo, curiosamente, não são um dom imutável. “Quando pensamos em genética, sempre devemos pensar em potencial”, afirma Lia. “Se o potencial não for explorado, ele não irá se manifestar”. Os genes têm que ser constantemente incentivados, e o único jeito de fazer isso é com atividade física regular e boa alimentação. Em outras palavras: o destino do seu desempenho atlético está nas suas mãos.

 

 

 

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