Se for pra jogar, vai ter que ocupar!

Afinal, praticar o esporte que ama em espaços públicos é luta e resistência

por Roberta Cardoso, co-fundadora ~dibradoras

Se você é mulher e gosta de esportes, sabe bem que não é tão simples – como é para os homens – pegar sua bola, juntar as amigas e desfrutar de momentos de lazer e prática esportiva dentro da escola ou em um espaço público.

Primeiro porque parte-se do pressuposto de que mulher não gosta de esportes e, com isso, a maioria das escolas adota essa premissa como realidade e não incentivam a prática esportiva entre as meninas. Consequentemente, as meninas se afastam do esporte e ficam sempre buscando espaços e companheiras para dividirem a quadra e o campo. As meninas que resistem a todos esses obstáculos e conseguem praticar um esporte, tem sempre que lutar por espaços e encontrar companheiras dispostas a jogar futebol, vôlei, basquete ou qualquer outra modalidade com certa frequência.

Falando sobre a dificuldade de encontrar espaços públicos para a prática coletiva, foi justamente nos últimos dias que pude presenciar in loco uma ocupação pacífica organizada por algumas meninas que desejam jogar basquete em uma quadra pública mas que sempre são impedidas por um grupo de garotos.

O time de basquete se chama Magic Minas e elas se organizaram para treinar uma vez por semana na Praça do Rotary, localizada na Vila Buarque, em São Paulo. As meninas treinam das 20 às 22h e contam com o suporte de uma técnica que é responsável por orientá-las na hora do aquecimento e durante o jogo. Deveria ser simples: chegou o horário estipulado e a quadra estaria livre para que elas pudessem usar. Mas isso não acontece, mesmo depois de muita conversa e acordos, os meninos não respeitam o combinado e seguem jogando seu futebol “só por mais cinco minutos” ou então “só até sair mais um gol”, fazendo com que elas esperem a boa vontade dos caras.

Acervo pessoal

Cansadas dessa situação, elas convocaram uma ocupação pela internet para que mulheres se unissem e pudessem ajudá-las a tomar um espaço que também as pertence. O evento foi crescendo e não só as praticantes estavam dispostas a ajudar, mas também mulheres que se solidarizaram com a causa. Uma delas foi a Magic Paula, ex-jogadora de basquete, campeã mundial, medalhista olímpica pela seleção brasileira e um dos maiores ícones do esporte brasileiro que marcou presença na quadra e fez questão de abraçar a causa das “basqueteiras”.

Acervo pessoal

A ocupação foi incrível, mais de 100 meninas se juntaram e, no horário em que costumam treinar, foram até a quadra pedir – mais uma vez – para usarem o espaço. Houve resistência, o tom de voz masculino aumentou, a cara feia apareceu, mas nada disso as impediu de jogar. Magic Paula não só distribuiu sorrisos e autógrafos, mas também os famosos passes mágicos dentro de quadra, tabelando ao lado das garotas. Confesso que presenciei um dos jogos de basquete mais incríveis da minha vida. E foi assim, em mais uma luta, que as Magic Minas puderam usar o espaço público – leia de novo: espaço público – por algumas horas, em apenas um dia da semana. Precisa ser tão difícil assim?

Esse não é o primeiro caso em que foi preciso ter resistência feminina para dizer: “ei, eu também gosto de esporte como você e quero jogar!”. As estudantes da EMEF José do Patrocínio também se mobilizaram para conseguirem praticar o futebol. Localizada no bairro do Ipiranga, as estudantes do 8ª ano tinham dificuldades em participar porque os meninos as impediam de jogar durante as aulas de Educação Física. Irritadas, as alunas procuraram a direção escolar para abordar o problema e expuseram seus protestos em cartazes dizendo “MENINAS PODEM SIM JOGAR BOLA”.

O assunto foi debatido em reuniões de classe e chegou-se ao consenso óbvio de que elas tem o direito de jogarem bola. As alunas Heloísa, Karina e Bruna, do 5º ano C, afirmaram que “agora estão conquistando o próprio espaço”. A própria Magic Paula falou com propriedade sobre o assunto durante a ocupação: “Eu espero que essa iniciativa não seja um movimento pontual, mas sim o início de uma transformação que envolve políticas públicas, de exigir uma melhoria dos espaços públicos e também de começar uma educação com os meninos para que eles entendam que as meninas gostam sim de estar na quadra. O espaço é para todos!”

Estudantes da EMEF José do Patrocínio

É difícil, mas não é novidade pra nenhuma mulher que, se quiserem conquistar algum direito, vão ter que lutar. Não é diferente para aquelas que desejam praticar esportes. Se quiserem jogar, vão ter que ocupar e eu só espero que elas sigam firmes e fortes em busca do espaço que elas também tem direito de frequentar.

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